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Merindilogun · os dezesseis búzios

Búzios e Ifá

Dezesseis conchas lançadas na peneira, e o número das que caem abertas diz qual Odu está falando. O oráculo iorubá que atravessou o Atlântico - e o sistema de Ifá, com seus 256 signos, de onde ele nasceu.

Os búzios não sorteiam uma figura: eles se contam. Faça a pergunta, lance as dezesseis conchas e veja quantas caem com a fenda para cima. Esse número, de um a dezesseis, é o nome do Odu que responde.

aberto - a fenda para cima fechado - o dorso para cima

Cada caída tem nome. De um búzio aberto a dezesseis, são os dezesseis Odus do merindilogun, e em cada um falam certos orixás. Os pontos claros mostram quantos búzios abertos chamam aquele Odu. Clique em qualquer um.

O babalaô não conta conchas: ele lança o opelê, uma corrente com oito meias-sementes, quatro em cada perna. Cada semente cai de um lado ou de outro, e oito sementes de dois lados dão exatamente 256 signos. Lance e veja um deles se escrever no tabuleiro.

o tabuleiro espera o primeiro lance

As dezesseis figuras-mãe

Cada perna do opelê forma uma de dezesseis figuras de quatro linhas, em que cada linha é uma marca simples ou dupla. Lê-se primeiro a perna direita, depois a esquerda, e o nome do Odu é a junção dos dois: Ogbe na direita e Oyeku na esquerda dá Ogbe Oyeku. Quando as duas pernas repetem a mesma figura, o Odu é Meji, "duplo" - são os dezesseis maiores, e o primeiro deles, Eji Ogbe, é o rei.

Quem conhece a Geomancia deste portal vai reconhecer os desenhos: são as mesmas dezesseis figuras, com outros nomes e outros sentidos. Os estudiosos ainda discutem quem ensinou a quem, ou se os dois ramos descendem de um tronco comum.

Entre todas as tradições reunidas neste portal, é talvez o caso mais direto: na terra iorubá, a consulta feita quando a criança nasce pode dizer qual ancestral da família voltou nela.

O ancestral que vem de novo

Atunwa - em iorubá àtúnwá, ao pé da letra "aquele que vem de novo" - é a crença de que os mortos da família retornam nos seus descendentes. Quase sempre é o avô que volta no neto, a avó que volta na neta. Não se trata de uma alma qualquer procurando um corpo qualquer: o retorno acontece dentro da linhagem, e a família o espera.

Por isso a pergunta "quem é esta criança?" não é, ali, figura de linguagem. Ela tem resposta possível, e há um oráculo encarregado de dá-la.

A consulta do nascimento

Nos primeiros dias de vida, a família leva o recém-nascido ao babalaô para o rito chamado Ikosewaye, "pôr o pé no mundo". Ifá é consultado, e o Odu que sai passa a ser o da criança: diz de que natureza ela é, o que deve evitar, que caminhos a favorecem - e, quando é o caso, quem voltou nela.

Dias depois vem a cerimônia do nome, e o nome muitas vezes guarda a resposta do oráculo:

NomeO que dizQuando se dá
Babatundeo pai voltoumenino nascido depois da morte do avô
Yetundea mãe voltoumenina nascida depois da morte da avó
Iyaboa mãe chegou de voltao mesmo caso, em outra forma
Babajideo pai despertouo avô que retorna

Quem conhece um Babatunde ou uma Yetunde conhece, para a família dele ou dela, alguém que já esteve aqui antes.

Um retorno que não esvazia o além

Há aqui uma sutileza que intriga quem estuda o assunto. O avô que voltou no neto continua no orun, o além, recebendo culto como ancestral - e pode ter voltado em mais de um neto ao mesmo tempo. Não é a pessoa inteira que retorna, como na reencarnação de matriz indiana: é uma parte da sua força, do seu jeito, do seu destino, que se reacende na linhagem.

O teólogo nigeriano Bolaji Idowu chamou isso de reencarnação parcial. A família não perde o ancestral para ganhar a criança. Fica com os dois.

Por que Ifá pode saber

A tradição explica assim: antes de nascer, cada pessoa se ajoelha no orun e escolhe o seu ori, a cabeça que é também o seu destino, moldada por Ajalá, o oleiro. Orunmilá estava presente e viu. Por isso é chamado Eleri Ipin, a testemunha do destino - e por isso o oráculo dele pode lembrar à família aquilo que a criança esqueceu ao atravessar.

Atunwa não é abiku

O abiku, "o que nasce para morrer", é outra figura: a criança que vem e vai embora cedo, repetidas vezes, presa a um pacto com companheiros do além. O atunwa é retorno desejado e festejado. O abiku é retorno que a família tenta convencer a ficar.

E no Brasil

A escravidão rompeu as linhagens, e sem linhagem não há como perguntar qual avô voltou. No Candomblé, a pergunta do nascimento e da iniciação passou a ser outra: qual orixá é o dono desta cabeça.

O culto aos ancestrais sobreviveu à parte, nas casas de Egungun da Ilha de Itaparica, na Bahia, onde os mortos ilustres da comunidade voltam, cobertos de panos, para dançar e aconselhar os vivos.

Dois jogos, uma família

Ifá é o sistema-mãe: o oráculo de Orunmilá, praticado pelo babalaô, "pai do segredo", com dezesseis caroços de dendê (os ikins) ou com a corrente do opelê. Tem 256 Odus, e cada Odu guarda centenas de versos que o sacerdote leva anos para decorar. Em 2005 a UNESCO reconheceu o sistema de Ifá como obra-prima do patrimônio oral da humanidade.

O jogo de búzios, ou merindilogun, é o parente mais simples e mais difundido. A palavra quer dizer dezesseis - ao pé da letra, "vinte menos quatro". Usa dezesseis conchas e lê dezesseis Odus. Foi ele que floresceu no Brasil, nas mãos das ialorixás e dos babalorixás do Candomblé.

Como se leem os búzios

O búzio é a concha de um pequeno molusco do Índico, que por séculos foi dinheiro na costa da África. Para o jogo, serra-se o dorso de cada concha, de modo que ela possa cair de dois jeitos: com a fenda natural para cima, aberta, ou com o dorso para cima, fechada. Conta-se quantas caíram abertas, e o número é o Odu.

Quem leva a pergunta e traz a resposta é Exu, o mensageiro, e por isso ele é saudado antes de qualquer lance. Um itan conta que foi Oxum quem conseguiu de Orunmilá o direito de ler os búzios, e até hoje o jogo é tido como dela.

Depois da caída principal, é comum confirmar a resposta com quatro búzios, num sim-ou-não de cinco tons. A peneira deste módulo faz as duas coisas.

Como o babalaô consulta

Com os ikins, o babalaô segura os dezesseis caroços na mão esquerda e tenta apanhá-los todos de uma vez com a direita. Se sobrar um, risca duas marcas no pó do tabuleiro; se sobrarem dois, risca uma. Repete até ter oito marcas, em duas colunas: está escrito o Odu.

Com o opelê, um só lance resolve: as oito meias-sementes caem côncavas ou convexas, e a corrente inteira já é o signo. É o método do dia a dia; os ikins ficam para as ocasiões solenes.

Saído o Odu, o babalaô recita os versos que pertencem a ele, e o consulente reconhece, entre as histórias, a que fala do seu caso.

Parente do I Ching e da Geomancia

Ifá é um sistema binário. Oito marcas que só podem ser simples ou duplas dão 2 elevado a 8, ou 256 signos. O I Ching faz o mesmo com seis linhas, inteiras ou partidas: 2 elevado a 6, ou 64 hexagramas. A Geomancia usa quatro linhas: 2 elevado a 4, ou 16 figuras - as mesmas dezesseis que formam cada perna do opelê.

Três povos, em três continentes, chegaram à mesma ideia: que o acaso, dobrado sobre si mesmo um número certo de vezes, produz um alfabeto.

A conta por trás da peneira

Os dezesseis Odus dos búzios não têm a mesma chance de sair. Se cada concha caísse aberta ou fechada com igual probabilidade, as caídas do meio seriam de longe as mais comuns: Ejionilê, com oito abertos, sairia em quase uma jogada a cada cinco, enquanto Alafiá, com os dezesseis abertos, sairia uma vez em 65.536.

Búzio de verdade não é moeda perfeita, e cada jogo tem o seu peso. Mas a forma da curva é essa, e ajuda a entender por que as caídas extremas são recebidas com tanta cerimônia.

Tradição viva

Diferente de um baralho ou de um livro antigo, os búzios e Ifá pertencem a religiões vivas: o Candomblé, o culto de Ifá, a religião tradicional iorubá. Numa casa de verdade, o jogo é feito por quem foi iniciado para isso, com búzios consagrados, e a resposta quase sempre vem acompanhada de um cuidado a tomar.

Este módulo é uma viagem cultural e simbólica pelos Odus. Não substitui a consulta, nem pretende.

O que este oráculo não faz

Não decide por você, não autoriza e não exime. O Odu descreve o clima de uma questão e aponta um conselho e um alerta. A escolha continua inteira de quem perguntou.